Joffre não foi o único a descobrir o filão que se apresenta como a segunda geração do comércio eletrônico no Brasil e oferece aos brasileiros produtos de marcas internacionais – e também nacionais – como roupas, relógios, perfumes, vinhos, objetos de design, lingeries, bolsas, moda infantil, acessórios para cozinha. Tudo com descontos de tirar a respiração. Privalia, Brandsclub, Superexclusivo, além do próprio Coquelux, são os canais de venda que querem fisgar o público de classe média alta no Brasil usando como isca mercadorias com as chancelas Dior, Armani, Blue Banana, Technomarine, Gap, Diesel, Forum, entre centenas de outras marcas consagradas. Cada produto fica em oferta por dois ou três dias. As vendas são limitadas ao estoque disponível. Com exceção do Privalia, para ter acesso é preciso ficar sócio, o que pode ser feito sem qualquer custo para o freguês.
A ideia de vender produtos de grife – com descontos arrasadores – para um público privê surgiu da necessidade de desovar as sobras de coleções de marcas voltadas para o público das classes A e B. Quem explica a origem desse modelo de negócios é o próprio Pierre Emanuel-Joffre. Segundo ele, na França o comércio só pode fazer liquidações em datas permitidas por lei. Há cerca de 20 anos, para driblar essa limitação, as grifes começaram a alugar apartamentos em bairros luxuosos de Paris onde vendiam as peças a convidados. Foi quando alguém teve a ideia de levar o modelo físico de negócio, que permitia vender os produtos que sobravam sem criar conflito de interesses com os lojistas e sem desgastar a imagem da marca, para a internet.
A analista de sistemas Karen Souza, de 32 anos, experimentou o Brandsclub e aprovou. "Comprei um relógio Armani por R$ 850. Nem imagino quanto custaria numa loja física", afirma. Ela confessa que ficou ansiosa, já que um dos inconvenientes é o prazo de entrega, mais demorado que o comum, e conta que experimentou antes um outro site e que, nessa ocasião, não recebeu o produto. Apesar do contratempo, a compra foi cancelada e a consumidora recebeu o dinheiro de volta. "No caso do relógio, o produto foi entregue dentro do prazo. Pretendo continuar comprando por meio desse canal", avisa. Irmãos, amigos e irmãos de amigos da analista de sistemas adotam usualmente o mesmo sistema. "Quando uma pessoa é muito próxima, comenta comigo que entrou uma oferta de determinada marca ou que gostou de determinado produto. Isso também leva a gente a entrar no clube de compras on- line para dar uma olhadinha nas ofertas", explica.
Há outra coisa em comum por trás dos clubes privados de compra que mais se destacam no país: um sócio estrangeiro. O Brandsclub tem a participação de um grupo de empresários alemães que atuam no modelo em mais de 10 países. Paulo Humberg, diretor-geral e fundador do site, porém, é brasileiro. Ele sustenta que 1,5 milhão de consumidores no Brasil recebem e-mail do site todos os dias. "Já conseguimos vender 5 mil unidades de um item em dois dias. Uma loja física nunca conseguiria uma marca como essa", comemora. O clube começou a funcionar em março de 2009 e faturou R$ 25 milhões naquele ano. Para 2011, a expectativa é multiplicar esse resultado em 10 vezes, chegando a R$ 250 milhões.
O Privalia, fundado há três anos na Espanha, mantém operações também na Itália e no México e acaba de completar um ano de operação no Brasil. "Esse é um modelo de negócio que cresce rapidamente. Nesse primeiro ano de operações, já reunimos 800 mil associados e fizemos operação com mais de 250 marcas distintas. E esse número vem crescendo a cada mês", diz André Shinohara, executivo-chefe do Privalia no Brasil. A base compradora é de 10% do número de associados, mas segundo ele existe uma curva de maturação que é natural nesse modelo de vendas via internet.
O comércio eletrônico é um segmento que se vem consolidando no país. Somente no Natal de 2009 movimentou um volume de R$ 1,6 bilhão. Dados da consultoria e-bit indicam que existem 70 milhões de internautas no Brasil, mas apenas 17 milhões compram pela internet. No ano passado, segundo a mesma fonte, o varejo virtual brasileiro movimentou R$ 8,2 bilhões. O número não inclui passagens aéreas, leilões virtuais e automóveis. Para este ano, a expectativa é que o faturamento ultrapasse R$ 10 bilhões. O segmento de vestuário ainda não aparece entre os cinco principais da internet brasileira.

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