As novas muralhas da internet e as leis de mercado


Veja matéria da capa da The Economist: The web’s new walls

A matéria da capa da revista The Economist de hoje destaca os novos muros, paredes, muralhas que estão sendo colocadas na web e a ameaça que ela coloca aos princípios de abertura e igualdade que a caracterizaram até agora e determinaram seu sucesso e crescimento. O texto diz que essas divisões estão surgindo em 3 frentes:
- Governos como a China tentando ter mais controle em uma internet com censuras e controles
- Empresas de tecnologia como Google, Apple e Facebook criando seus ecossistemas fechados dentro da web com e ditando seus próprios princípios e interesses
- Operadoras de telecomunicações, TV a cabo, etc, buscando através do fim da neutralidade da web, conseguir diferenciar bandas e serviços e com isso conseguir extrair um valor diferenciado na conexão de banda larga

Enquanto a revista diz que algumas dessas frentes podem não ser de tudo tão mal, a The Economist foi sempre a favor da abertura, neutralidade e liberdade.

Para colocar mais mais pimenta na discussão, a revista Wired (link abaixo), declarou o fim da web como a conhecemos, ressaltando a tendência de ecossistemas fechados de aplicativos, vídeos e P2P.

A discussão é interessante e provavelmente interminável e sem conclusões. Eu tendo a ser alinhado com a opinião da The Economist neste caso. Gosto da liberdade, neutralidade e das leis de mercado. Mas entendo também, que os mercados perfeitos e eficientes como estudamos na faculdade, não existem na sua plenitude como cabem no papel e nos livros didáticos. A própria abertura de mercado tão pregada pelos EUA vem sempre recheadas de segundas intenções e interesses, haja visto que para certas indústrias americanas, a abertura de mercado parece não interessar.

Portanto, acredito nas leis de mercado, sem hipocrisia e com claros sistemas de incentivo. Um bom exemplo disso tem sido o desenvolvimento do ecossistema de aplicativos. Lembrem bem como aconteceu.

A Apple ao lançar a primeira versão do iPhone tinha feito em um modelo fechado. Os desenvolvedores logo sinalizaram que queriam o modelo aberto. Logo as várias frentes criaram os “jailbreaks” e foi criado um ecossistema paralelo de “loja de aplicativos”. A Apple tentou por 2 ou 3 vezes criar uma nova versão de software que impedia o desbloqueio. E aí, entendendo que não funcionaria, Steve Jobs, se rendeu a eles. Ao invés de lutar contra o mercado, o oficializou, criou o SDK (ferramenta para desenvolvedores) e a App Store, criando um sistema de incentivo para trazer os desenvolvedores para trabalhar a favor e não contra. Visão do Steve Jobs? Sim, porque o verdadeiro marketeiro ouve a voz do mercado. Para não deixar também em um só exemplo, vamos ao Facebook. Quando foi que o Facebook decolou de vez e descolou do MySpace? Exatamente no momento que Mark Zuckerberg fex o seu evento-festa com os desenvolvedores e abriu o Facebook para seus aplicativos. Nem preciso falar sobre o Google, que aprendendo com os outros, e seguindo suas tradições, ao lançar o Android foi direto para o modelo aberto, colaborativo com os desenvolvedores.

Pois bem, esses modelos estão vingando e refletem muito a provocação da Wired sobre a morte da web como a conhecemos. Não são modelos completamente livres e abertos, são modelos híbridos, que talvez se possa chamar de liberdade guiada ou coordenada por uma visão, princípio e sistemas de incentivos. Será que está errado?

Discuti muito esse tema no fim de semana passado com um famoso e inteligente ex-ministro do período da ditadura militar brasileira. Obviamente não concordamos com todos os pontos, mas acho que temos uma visão comum, que existem momentos em que a liberdade total do mercado pode não levar ao desenvolvimento de longo prazo. Por vezes, como nos casos das PPPs, uma liberdade guiada ou incentivada, pode acelerar ou iniciar o desenvolvimento de setores, indústrias ou regiões que não dariam retorno para a iniciativa privada nos primeiros momentos. Compare por exemplo, o sucesso do governo da Coréia do Sul ao subsidiar o desenvolvimento da banda larga no país buscando a penetração de quase 100% da população, e líder no mundo neste quesito. Foi um investimento que não dará retorno no curto prazo, mas mudou o patamar da Coréia na industria digital. Compare agora com o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga) no Brasil. As várias tentativas anteriores de empurrar para as operadoras um meta de universalização de banda larga foram falhando, pois qual empresa privada quer colocar banda larga em cidades com menos de 50 mil habitantes, onde não haverá retorno sobre investimentos. Agora em São Paulo, nos Jardins, Itaim, Moema, todos querem entrar.

Portanto, para não alongar demais, um tema que poderia servir de dias e meses de debates. Não defendo censura, nem monopólios, mas reconheço que existem situações em que existem ineficiências de mercado, e a liberdade e eficiência teórica que vemos nos MBAse a hipócrita que assistimos em alguns governos, nem sempre levam a um desenvolvimento sustentável de longo prazo. Nesses casos um modelo híbrido de liberdade controlada e incentivada parece ser mais adequado. Afinal não é assim que funcionam todas as outras questões na nossa vida? Liberdade com responsabilidade. Como anda a parte da responsabilidade na internet de hoje?

Fonte: mmonline.com.br

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